sexta-feira, 8 de março de 2013

MULHER!



MULHER
 
 
Elas são as mães:
rompem do inferno, furam a treva,
arrastando
os seus mantos na poeira das estrelas.

Animais sonâmbulos,
dormem nos rios, na raiz do pão.

Na vulva sombria
é onde fazem o lume:
ali têm casa.
Em segredo, escondem
o latir lancinante dos seus cães.

Nos olhos, o relâmpago
negro do frio.

Longamente bebem
o silencio
nas próprias mãos.

O olhar
desafia as aves:
o seu voo é mais fundo.

Sobre si se debruçam
a escutar
os passos do crepúsculo.

Despem-se ao espelho
para entrarem
nas águas da sombra.

É quando dançam que todos os caminhos
levam ao mar.

São elas que fabricam o mel,
o aroma do luar,
o branco da rosa.

Quando o galo canta
Desprendem-se
para serem orvalho

Eugénio de Andrade

5 comentários:

  1. Que poema lindo!
    Não o conhecia!
    Obrigada!

    Abraço

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  2. por sermos tanto, mas tanto é que não havia de haver o dia da mulher...

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  3. Num mundo governado por homens, na adversidade dos dias somos tudo isto e muito mais.
    Beijinho

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